Gilberto Occhi, presidente da Caixa Econômica Federal, anunciou que o banco estuda viabilizar uma possível redução dos juros da casa própria para quem puder dar uma entrada maior, e financiar o imóvel em menos tempo.
A intenção política do banco seria movimentar o mercado, mesmo que seja de forma modesta (e sem risco). De fato, ao concentrar taxas de juros menores em contratos de financiamento de curto prazo, e com pequeno saldo devedor, a Caixa minimiza a chance de inadimplência e aumenta exponencialmente o retorno financeiro do banco em caso de retomada.
Apesar da notícia, não vejo motivos para comemorarmos. Há alguns meses informo que o País passa por uma grande reestruturação no mercado de imóveis. Por ora, não existe uma solução para um cenário que se aproxima cada vez mais: a falta de funding (recursos disponíveis para o financiamento imobiliário).
Arrisco dizer que, atualmente, nosso País passa pela maior escassez de crédito de sua história. A política não sustentável de consumo de crédito dos últimos anos levou o Brasil a uma parada brusca na concessão de financiamentos imobiliários.
Seguindo os preceitos mais primitivos e extrativistas, e sem a menor precaução, consumimos os recursos da poupança (SFH) e do FGTS (Minha Casa Minha Vida, FGTS Pró-Cotista e SFH). Nas últimas décadas, o incentivo governamental à formação de novos meios de financiamento foi desprezível, criando, assim, uma forte dependência da caderneta e do Fundo de Garantia como garantidores da Pátria. Em 2015/16, chegamos a um ponto tão grave que linhas do SFH sofreram adaptações antes de um possível colapso da caderneta de poupança, o FGTS Pró-Cotista foi interrompido em diversas categorias devido a carência de recursos e má estruturação, e o Minha Casa Minha Vida tornou-se um coadjuvante pobre por falta de recursos do Tesouro Nacional.
Além da alteração de diversas linhas de financiamento, a escassez também se mostra rigorosa nas análises de crédito realizadas por instituições financeiras. Aqueles que usaram o sistema notaram que ser aprovado junto a um banco tornou-se uma tarefa árdua. Com menos crédito para emprestar, extraoficialmente os bancos realizam um filtro em suas análises aceitando somente os clientes que lhes convêm, ou postergando suas decisões de aceite ou recusa até que uma das partes (comprador ou vendedor) desista do negócio. Assinar um contrato de financiamento tornou-se um vitória digna de medalha de ouro.
Até que se reestruture o funding brasileiro, continuaremos vivendo num cenário incerto. Reitero que não se trata de pessimismo de minha parte (aliás sou um grande entusiasta deste mercado). O dilema do financiamento imobiliário atravessa as esferas da confiança na economia, da política nacional e do otimismo pertinente às nossas ações, e atinge diretamente a disponibilidade bancária atual, cujas reservas encontram-se carentes de recursos.


