Há poucos dias, passei pela Rodovia Presidente Dutra. Chamou-me a atenção uma publicidade na entrada da Cidade de Cruzeiro/SP. Em tons garrafais, num outdoor colossal, o CRECISP anunciou: “Imóvel, só com corretor. É lei.” Causou-me estranheza o tamanho investimento para uma informação que deveria ser óbvia.
Sem contar que as palavras usadas pelo CRECISP trazem certo desconforto ao público, uma vez que a intermediação de compra e venda sem a consultoria do corretor, deveria ser sumariamente subentendida como crime, ilegal, ilegítimo. Será que é essa a descrição que o CRECI deve passar para o público?
Corretores
Há tempos, escrevo sobre a qualidade da corretagem imobiliária no Brasil. De fato, caiu absurdamente nos últimos 15 anos, salvo melhor juízo. Para que a máquina de lançamentos em série fosse mantida, o corretor deixou de ser capacitado e tornou-se mão de obra produzida em série, de qualidade facilmente dispensada.
Foi dessa forma que o mercado de vendas foi conduzido no período do boom. Teoricamente quanto mais “promotores de vendas por telefone” uma imobiliária tivesse, maior seria o resultado para o interessado. Aliás, a nova estratégia das imobiliárias era mantê-los como um telemarketing pessoal.
O corretor deixou de ser o grande intermediador e se tornou um mero telefonista. Um paradigma histórico fora quebrado por necessidades temporais e emergenciais. O corretor ligava, oferecia o imóvel para 50 a 100 pessoas por dia, e tentava marcar alguma visita ou agendamento para um futuro lançamento. Caso houvesse interesse por parte do cliente, o gerente assumia a negociação e prosseguia em caso de fechamento. Simplesmente, ridículo.
Com pouco ou nenhum treinamento, muitos não viram sequer a cor do dinheiro: foram engolidos pela inexperiência ou por grupos fechados de imobiliárias. Alguns mais espertos se sobressaíram e conseguiram o seu sustento por um certo período. Pouquíssimos usufruíram da vitória.
A nova estratégia surtiu efeito nos tempos áureos do mercado imobiliário. O cliente, entusiasmado com o frenesi e o estado de exaltação das vendas e lançamentos, entrou no mercado pagando por preços absurdos, especulando e comprando imóvel cujo uso futuro era inegavelmente desconhecido. Mas, com o passar do tempo, o furor dos lançamentos em série, vendas em 2 horas e lucratividade exorbitante terminaram. Sobrou o velho e bom mercado imobiliário.
“Elefante branco”
Um dos grandes entraves para a qualificação inicia-se com o verbo a ser conjugado, isto é ou o profissional “é” corretor, ou “está” corretor. Muitos tentaram vida na corretagem sem saber os requisitos mínimos do setor. Afinal, a consultoria imobiliária não é simplesmente saber vender, mas “savoir-faire”, “know-how” ou, simplesmente saber fazer com habilidade para se obter êxito. Saber discutir sobre o mercado imobiliário é uma das premissas básicas para se tornar um bom corretor o que demanda muito estudo, leitura e pesquisa. Estranhamente, passam-se os anos e vejo que os Conselhos não se interessam por essa questão.
A atitude de “tornar-se” cego às admissões de desqualificados criou um “elefante branco” difícil de ser solucionado. A aceitação sem precedentes de novos profissionais inflou a máquina a tal ponto que o CRECI se vê obrigado a divulgar propagandas fortes na crença de um corretor legítimo e perfeito. Quanto a legalidade da classe, é justa e não cabe discussão; porém forçar o comprador a contratar um serviço que porventura seja incompetente, é impor a inviabilidade de um “elefante branco” a terceiros, salvo aqueles cuja competência é louvável e apreciável.
CRECI
Os Conselhos não devem ser apenas “entregadores” de carteiras; todos precisam motivar seus profissionais ao preparo ético e moral. Ao invés de realizar somente suas fiscalizações nas imobiliárias, stands, ou investir grande capital em publicidade sem nexo, o CRECI precisa normatizar a capacitação, realizar treinamentos, e acima de tudo mostrar que os Conselhos estão do lado do próprio corretor, prestando qualquer tipo de auxílio à sua profissão.
Em minha opinião, o pagamento anual é pertinente. Concordo com sua cobrança, porém a sua gestão de gastos precisa ser alterada. A imagem do CRECI seria altamente reconhecida caso a aplicação das anuidades fossem realizadas de forma alternativa. Pode parecer utópico, mas o entendimento sociológico da questão é fazer de cada corretor de imóveis um fiscal do Conselho. Para atingirmos tal patamar, precisamos conscientizar, doutrinar e instruir.
Atualmente, a carência de qualidade imputa aos Conselhos Regionais a tarefa de obrigar a terceiros a contratar um corretor, seja esse bom ou ruim, vide o comentário inicial da matéria. Apesar do respeito à instituição, acredito ser totalmente dispensável coagir, através de palavras, uma situação que deveria ser remediada pela próprio Conselho. Julgaria da mesma forma se encontrasse nas avenidas e estradas do Brasil frases como “Cirurgia, só com médicos” ou “Ações judiciais, só com advogados”. Sinceramente, beira o ridículo o entendimento se comparado com outras categorias.
Os CRECIs precisam fomentar a capacitação dos corretores, mas para isso deve cobrar de si próprio. Aposto que se houvesse uma prova de habilitação para todos os profissionais do País, nem 10% seria aprovado. Escrevo isso por experiência, e por ser corretor com muito orgulho. Se for regra de ajuste tirarmos os maus profissionais do mercado, que se faça de forma rápida e pontual. Manter aqueles que “estão” corretores não trará nenhum ganho à categoria, com exceção da arrecadação anual dos CRECIs.
Ao invés de forçar o relacionamento cliente/corretor, os Conselhos deveriam promover a aproximação das partes. A imagem do profissional foi manchada na última década. O despreparo invadiu o mercado, deixando em segundo plano o conhecimento. Cabe aos CRECIs realizar a renovação e reintegração de seus profissionais junto a população, mesmo que, reiterando, se corte dos quadros dos Conselhos os profissionais não capacitados. Uma categoria não pode ser simplesmente imposta por vias legais, é necessário que haja boa recepção da população quanto aos trabalhos exercidos por essa classe. Quem sabe um dia passe novamente pela mesma estrada e encontre uma frase mais espirituosa e harmônica, muito distante da conotação atual.

