O Banco Central anunciou hoje, dia 07 de maio de 2015, que a caderneta de poupança já perdeu R$ 29 bilhões em 2015. Foi o quarto mês seguido que a poupança fechou no negativo, apresentando o volume de aplicações no valor de R$ 648 bilhões, sendo R$ 510 bilhões destinados ao SBPE (financiamento imobiliário) e R$ 138 bilhões ao SBPE Rural (financiamento rural).
Relação mercado imobiliário e poupança
O SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) foi um dos motores do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), que inclui, também, empréstimos com recursos do FGTS e outros programas sociais, que são igualmente regulados pelo Banco Central através da resolução 3932 de 2010.
Nos os últimos 10 anos, mais de 75% dos contratos de financiamento imobiliário tiveram recursos provenientes da caderneta de poupança. De 2004 a 2014, R$ 540 bilhões foram destinados à construção ou aquisição de imóveis.
Os principais motivos da atração pela caderneta foram o seu estímulo consumidor que fixava uma taxa de juros máxima de 12% ao ano nos contratos regidos pelo SFH, e uma política macroeconômica de incentivo de redução da taxa SELIC, chegando ao mínimo histórico de 7,25% ao ano em 2012, o que aumentou significamente os depósitos na poupança devido a sua rentabilidade diferenciada. De 2004 a 2012, o saldo da poupança bateu record, subindo de R$ 126 bilhões para R$ 522 bilhões respectivamente: um aumento de 410% em 10 anos. Em suma, era um dinheiro barato para novos financiamento, de fácil acesso às instituições financeiras e rentável para clientes.
Entretanto, com o aumento gradual da taxa SELIC nos últimos meses, a poupança deixou de ser um excelente investimento e tem perdido atratividade frente a outros fundos. Isso ocorre porque o rendimento dos investimentos de renda fixa sobe junto com a taxa SELIC. Já o rendimento das cadernetas de poupança, quando a taxa de juros está acima de 8,5%, está limitado em 6,17% ao ano mais a variação da Taxa Referencial (TR).
O resultado é uma saída gigantesca de recursos da caderneta e, em consequencia, a exposição da fragilidade do SBPE. A fuga de recursos da poupança forçou a Caixa Econômica Federal a reduzir o limite de financiamentos com recursos da poupança para compra de imóveis usados de 80% para 50%, em 04 de maio de 2015. Até a presente data, a Caixa não divulgou números relativos aos primeiros quatro meses do ano, nem explicou quanto dos financiamentos concedidos foram com recursos do FGTS e quanto com recursos de poupança, porém dados do banco do último trimestre de 2014 apontavam que a situação merecia cuidados para os primeiros meses de 2015.
Alternativas
A outra opção é o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) que utiliza recursos captados no mercado de investimentos, como Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Nesse caso, não há direcionamento nem limites estipulados pelo Banco Central e as taxas de juros cobradas são de livre mercado. O mais novo instrumento a disposição dos financiamentos imobiliários com recursos livres são as Letras Imobiliárias Garantidas (LIGs), que ainda estão sendo regulamentadas.
Impacto nos próximos meses
Estamos vivendo um momento único de nossa história. Uma seqüência de quebra de paradigmas e conceitos. Há anos comentamos sobre um possível colapso do SBPE. Em 2012, o relatório do Banco Central já apontava a exaustão da caderneta de poupança entre os anos de 2015 e 2016. O resultado veio mais cedo devido ao aumento da taxa SELIC, bem como a falta de incentivos governamentais e resoluções do Banco Central que incentivassem outros meios de funding, além da poupança. O resultado atual é uma mistura de ajuste econômico e falta de prevenção e gerenciamentos dos órgãos reguladores dos recursos para financiamento.
Mas ainda temos saída. Em 2015, foi aprovada a lei estipula a LIG, a qual rogamos que seja regulamentada rapidamente. Além disso contamos que a arrecadação da LCI e CRI que deverão aumentar substancialmente devido ao reajuste da taxa SELIC nos últimos meses. O financiamento ficará mais caro, mas não cessará.
O limite de crédito e restrição da Caixa deverão aumentar e envolver imóveis novos nos próximos meses, exceto Minha Casa Minha Vida cujos recursos são provenientes do FGTS. A Caixa apresenta um saldo apertado para novas contratações através do SFH.
Comece a estudar a linha de financiamento de outros bancos. Analise suas condições, taxas e percentuais. Inicie o relacionamento com gerentes de contrato de financiamento e aproxime seus negócios ou desejos dos bancos que ainda possuem saldo para negócios no SFH. Entretanto, se soluções não forem tomadas para evitar a saída de recursos da poupança, tenho certeza que em curto prazo as instituições privadas também serão atingidas, e tomarão as mesmas medidas da Caixa.
Soluções rápidas ou paliativas
A solução rápida para evitar o colapso do SBPE é a alteração urgente dos rendimentos da poupança, e igualmente adaptando-os à nova realidade da taxa SELIC. Esse gesto atrairia antigos e novos investidores para a caderneta.
A solução paliativa é a alteração da resolução 3932 de 2010 do Banco Central que determina o percentual de 65% dos depósitos da poupança para o SBPE. O aumento do percentual resultaria num alívio ao saldo atual disponível do SBPE, mas acredito que seja extremamente arriscado pois usaria parte do depósito compulsório da carteira.

